Entre música popular, rondas pelas tasquinhas e bancas repletas de fumeiro, os primeiros dias da Feira Gastronómica do Porco de Boticas confirmaram a importância deste certame para a afirmação do mundo rural e do saber-fazer tradicional.
O Pavilhão Multiusos, nestes últimos dias, tem sido ponto de encontro para visitantes vindos de vários pontos do país que querem provar e levar para casa o fumeiro barrosão.
Sábado voltou a afirmar-se como um dos dias mais fortes da programação. Desde a abertura, a feira registou um fluxo constante de público, com famílias e grupos de amigos a ocuparem o recinto ao longo de todo o dia. Um dos momentos mais aguardados aconteceu a meio da tarde, com a realização das Chegas de Bois, manifestação cultural identitária do Barroso que atrai sempre grande atenção e que liga a feira às raízes ancestrais do território.
É neste contexto que ganham especial relevância as histórias de quem dá vida à feira. Entre os vários produtores presentes está Rosa Rodrigo, que participa no certame desde as primeiras edições, representando a memória e a resistência de um modelo de produção artesanal transmitido de geração em geração.
A história de quem faz
A Feira Gastronómica do Porco de Boticas não nasceu com a dimensão que hoje a distingue. Começou de forma simples, quase improvisada, quando o então presidente da câmara desafiou alguns produtores a levarem até à vila o que tinham em casa.

“Foi um convite. Vamos fazer a feira. Quem tinha produto veio com um pouquinho”, recorda esta produtora de Boticas.
Na altura, vinha acompanhada pela mãe: “Ela trouxe só um bocadinho de fumeiro e voltou para casa com um dinheiro que achou imenso”, conta, entre sorrisos.
Um valor que hoje pode parecer modesto, mas que, à época, representava muito: “Uma broa custava mil escudos. Hoje cinco euros já ninguém paga. Mas na altura dava-se esse dinheiro sem pensar.”
Os preços evoluíram, os custos aumentaram, mas o esforço manteve-se, e, em muitos casos, agravou-se.
“Isto não é uma atividade fácil. Dá mesmo muito trabalho”, sublinha. E o trabalho começa muito antes de a feira abrir portas.
Durante um ano inteiro, os porcos são alimentados com produtos do campo. Batatas, milho, beterrabas, abóboras, centeio. Tudo produzido pela própria família.
“Somos agricultores. Não compramos rações, porque isso tornava tudo ainda mais caro. Aproveitamos o que a terra nos dá.” O centeio é moído em casa, as batatas são da região, reconhecida pela sua qualidade.
Depois vem a matança, o desmanchar do porco, a preparação das carnes, que ficam vários dias em vinho e alho, sempre a serem mexidas. O veterinário municipal acompanha o processo, verifica, certifica. Segue-se a lavagem das tripas, o enchimento, o atar das chouriças, a defumação lenta.
“Não há um dia que não se tenha de mexer nisto”, explica. Se não seca bem num sítio, muda-se de lugar. Ajusta-se o fogo, vira-se a peça, espera-se.
É um trabalho familiar. Três irmãs ajudam-se mutuamente. Os filhos também entram na cozinha nos dias mais exigentes.
“Se isto fosse mais valorizado, talvez os jovens quisessem fazer mais produção”
“Um mete os paus no lareiro, outro ajuda a encher, as mulheres a atar. É assim, à moda antiga.” Um saber transmitido de geração em geração, sem atalhos nem industrialização.
Apesar do orgulho no produto final, há sempre a incerteza: “Nunca sabemos como vai correr a feira.” O frio, a chuva, o poder de compra, tudo influencia.

“Matámos dez porcos. Se vender tudo, ótimo. Mas se sobrar muito, é complicado.” Às vezes ficam 15 ou 20 quilos. E não há sempre canais para escoar o excedente. “Trabalhamos na incerteza.”
Ainda assim, o fumeiro continua a ter procura.
“As pessoas gostam. Levam menos, às vezes só duas ou três chouriças, mas levam.” Clientes habituais regressam todos os anos, quando o tempo ajuda e a economia permite.
O futuro, porém, levanta interrogações. Rosa tem dois filhos. Um trabalha nas Águas de Carvalhelhos, a outra é nutricionista.
“Eles sabem fazer tudo isto. Aprenderam connosco. Mas outra coisa é querer continuar.” Como tantos outros pais, incentivou-os a estudar. “Dizemos sempre: estuda, para não passares o que nós passámos.”
Entre o desejo de continuidade e a realidade dos tempos modernos, fica a esperança de que a valorização do produto, o reconhecimento do trabalho e uma maior atratividade do setor possam fazer a diferença.
“Se isto fosse mais valorizado, se desse mais ânimo, talvez os jovens quisessem fazer mais produção”, conclui Rosa Rodrigo.
Na Feira Gastronómica do Porco de Boticas, entre bancas cheias de fumeiro, cheiros intensos e conversas partilhadas, percebe-se que cada parte do porco ali pendurada carrega muito mais do que carne e fumo. Carrega tempo, esforço, memória e identidade. Porque, como lembra Rosa Rodrigo, “isto não aparece do ar”.
*Conteúdo com apoio na sua produção.


