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Inclusão e bem-estar ganham força em Chaves com projetos do Orçamento Participativo

O Orçamento Participativo deu voz aos flavienses, trazendo para o centro da discussão temas como a inclusão e a saúde mental: a criação de um parque infantil “para todos” e a implementação de um programa de bem-estar, através do yoga e da meditação, foram as propostas vencedoras.

Para Susana Xavier, a ideia de criar um parque inclusivo nasce de uma convicção antiga, mas também de uma experiência pessoal que a marcou. Licenciada em Engenharia de Reabilitação e Acessibilidades Humanas, sempre teve a acessibilidade como foco do seu percurso.

“Já era uma coisa muito antiga, desde que acabei o curso. A acessibilidade e as crianças sempre me motivaram”, explica.

O momento decisivo surgiu durante a Feira dos Povos: “Vi o meu filho a brincar com o filho de uma amiga que tem uma limitação. O meu filho estava a desfrutar a 100% e o outro precisava dele para conseguir brincar”, recorda.

“Todas as crianças deviam ter o direito de brincar e desfrutar do parque da mesma forma”, acrescenta.

A proposta apresentada ao Orçamento Participativo, e vencedora na Componente 1, com um orçamento de 250 mil euros, prevê a criação de um parque inclusivo de raiz na freguesia de Santa Cruz – Trindade, num espaço atualmente desativado.

Mais do que construir um equipamento, Susana Xavier quer desconstruir ideias.

“Não é um parque para crianças com deficiência. É um parque para todos os meninos poderem brincar”, sublinha.

“Todas as crianças devem brincar”

Para a promotora, a inclusão passa precisamente por evitar a segregação.

“O problema é que ainda há muito o estigma do ‘coitadinho’. E isso é horrível. Não são coitadinhos. São crianças que têm de brincar como as outras.”

O projeto contempla uma abordagem abrangente à acessibilidade, com equipamentos adaptados a diferentes tipos de limitações, sejam físicas, sensoriais ou cognitivas. Estão previstos baloiços com maior segurança, estruturas acessíveis a cadeiras de rodas e espaços sensoriais com estímulos, como aromas e texturas.

“A ideia é criar pequenos espaços pensados para diferentes necessidades, como um cantinho para crianças com dificuldades visuais, com ervas aromáticas e materiais táteis”, explica.

A preocupação estende-se também aos cuidadores e famílias.

“Uma criança com limitações precisa sempre de acompanhamento. É importante que o espaço seja confortável também para quem está com elas.”

Apesar de ter sido a única proposta apresentada nesta componente, Susana Xavier admite que não esperava vencer.

Inclusão na ordem do dia

“Fiz tudo por iniciativa própria. Pesquisei, pedi orçamentos, preparei a candidatura. Mas achei que iam surgir ideias mais abrangentes. A deficiência não está no dia a dia de toda a gente”, refere. Ainda assim, o projeto reuniu 149 votos.

Mais do que o resultado, o que mais valoriza é o impacto gerado na discussão pública.

“O meu objetivo era mexer com as pessoas. Colocar o tema em cima da mesa. Ainda há muitas famílias que evitam sair com os filhos por causa dos olhares.”

Para esta flaviense, a inclusão começa desde cedo.

“É importante que os miúdos cresçam a perceber que há diferenças. Isso cria empatia, respeito e normalidade.”

E vai mais longe: acredita que Chaves pode afirmar-se como referência nacional nesta área.

“Temos condições para isso. Desde o turismo acessível à adaptação de espaços naturais”, concluiu.

Respirar fundo para viver melhor

Também a saúde mental ganhou destaque no Orçamento Participativo 2025, através do projeto “Respira Chaves”, promovido por Aurora Oliveira. Integrado na Componente 2, com um orçamento de 30 mil euros, o projeto conquistou 136 votos e propõe aproximar a comunidade de práticas como o yoga, a meditação e a expressão criativa.

Curiosamente, a ideia surgiu em cima do prazo.

“Foi apenas uma semana antes do fim. Em conversa com amigas, acabei por partilhar o meu interesse pelo yoga e pela meditação”, conta.

“Parecia tudo muito repentino, mas com o apoio de amigos e família consegui estruturar o projeto”, acrescenta.

O plano inclui aulas de yoga, sessões de meditação guiada e atividades criativas como desenho, escrita e exercícios de autoexploração. As sessões deverão decorrer em espaços interiores, mas também ao ar livre, aproveitando o potencial natural da cidade, com destaque para o parque termal de Chaves, o jardim público e a zona ribeirinha do rio Tâmega.

Sem restrições de idade ou condição física, o projeto dirige-se a toda a população, incluindo crianças, jovens, adultos e idosos, bem como pessoas em situação de maior vulnerabilidade emocional.

“A ansiedade acompanha-me desde os meus primeiros anos de vida. Durante muito tempo procurei formas de lidar com isso e foi através do yoga e da meditação que comecei a sentir melhorias”, partilha.

“O ritmo frenético das nossas vidas quase não nos deixa tempo para respirar. Se não pusermos um travão, torna-se cada vez mais difícil lidar com os nossos pensamentos.”

Para a promotora, o caminho começa por algo simples.

“Antes de tudo, é preciso respirar e sentir. Só depois conseguimos aproveitar a qualidade de vida.”

Na Componente 2, o projeto de Aurora Oliveira destacou-se entre quatro propostas finalistas, seguido de “À Jeira – Festival de Artes de Chaves”, com 50 votos, “Livro de Rezas de Benzedeiras do Concelho de Chaves – Palavras que Curam”, com 35 votos, e “Aldeia Natal – São Julião de Montenegro”, com 15 votos.

Mais conscientes e inclusivos

Embora distintos, os dois projetos partilham uma visão comum: construir uma comunidade mais equilibrada, inclusiva e preparada para responder às necessidades de todos.

O parque inclusivo aposta na igualdade de oportunidades desde a infância, promovendo a convivência e a aceitação da diferença. Já o “Respira Chaves” foca-se na saúde mental e no bem-estar emocional, áreas cada vez mais relevantes numa sociedade marcada pela pressão e pela falta de tempo.

Ambas as iniciativas seguem agora para a fase de execução por parte do município.

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