A XXVIII Feira Gastronómica do Porco de Boticas foi inaugurada ontem, afirmando-se, uma vez mais, como o grande ex-libris do concelho e um dos eventos de referência do Barroso. Durante quatro dias, o Pavilhão Multiusos transforma-se numa montra do setor agrícola, do fumeiro tradicional, das raças autóctones e de um saber-fazer que atravessa gerações.
A sessão inaugural contou com a presença do secretário de Estado da Agricultura, João Moura, e do presidente da Câmara de Boticas, Guilherme Pires, num momento marcado por mensagens em defesa da agricultura, dos produtores locais e da necessidade de valorizar, dentro e fora do país, os produtos de excelência do Interior do país.
Governo destaca apoios à produção extensiva e aposta na qualidade
Na sua intervenção, João Moura respondeu às preocupações manifestadas por deputados e produtores relativamente à sustentabilidade da atividade agrícola, sublinhando que o foco do Governo não está apenas nas receitas, mas sobretudo no reforço dos apoios que permitem tornar a agricultura uma atividade viável e atrativa.
“O Governo lançou este ano uma linha anual de 30 milhões de euros para apoiar a produção animal em regime extensivo, contribuindo para a redução da carga combustível nas florestas”, explicou o secretário de Estado, lembrando que o pastoreio é uma ferramenta fundamental no combate aos incêndios florestais, um problema estrutural do país.
Para além deste apoio, João Moura destacou os incentivos à instalação de jovens agricultores, os apoios às raças autóctones e os diversos mecanismos existentes para a produção nacional. Ainda assim, reconheceu que os incentivos “nunca são suficientes”, apontando como principal desafio a valorização económica dos produtos tradicionais.

A mensagem que trouxe à Feira de Boticas foi clara: Ambição. Inspirando-se nas palavras do primeiro-ministro, João Moura defendeu que os territórios do Interior devem acreditar no valor dos seus produtos e saber comunicá-lo.
“Os produtos do fumeiro, os enchidos, a carne produzida nestas terras tem elevadíssimos níveis de qualidade e, muitas vezes, estão a preços muito abaixo do seu verdadeiro valor”, afirmou.
Segundo o governante, a aposta não deve ser na quantidade, mas na diferenciação pela qualidade, sobretudo num contexto de abertura de mercados, como o acordo entre a União Europeia e o Mercosul (Mercado Comum do Sul).
“Comparar carne produzida no Brasil com carne produzida no Barroso é comparar o incomparável. Nós jogamos na qualidade”, frisou, acrescentando que o alargamento dos mercados pode ser uma oportunidade estratégica para os produtos portugueses de excelência.
Guilherme Pires exige respeito pelos agricultores e anuncia novos apoios locais
O presidente da Câmara de Boticas assumiu a Feira Gastronómica do Porco como “o maior orgulho do concelho” e uma prova viva da importância da agricultura para o território. Com cerca de 70 mil visitantes esperados, o autarca destacou o impacto económico e simbólico do evento, que apoia diretamente quem produz.
“Os produtores de fumeiro trabalham no valor acrescentado, na qualidade, na gastronomia que nos define enquanto território”, afirmou, reforçando que as autarquias têm o dever de estar próximas dos agricultores e amplificar a sua voz junto do Governo.
Num discurso marcado pela proximidade, Guilherme Pires alertou para a falta de reconhecimento social da atividade agrícola.
“É tempo de respeitar os agricultores. É uma atividade tão digna como qualquer outra e ainda mais, porque protege aquilo que temos de melhor, a nossa gastronomia”, sublinhou.
O autarca deixou ainda um alerta: “Sem agricultores, não há produtos, nem futuro”.

“Se um dia não houver quem trabalhe a terra, o que vamos comer? O fumeiro não aparece do ar. A carne barrosã não aparece do ar”, afirmou.
Gabinete de apoio rural e aposta nos jovens agricultores
Entre os anúncios mais relevantes feitos na abertura da feira, o autarca botiquense revelou a intenção de criar um gabinete de apoio rural no concelho, destinado a acompanhar agricultores e novos projetos agrícolas, não apenas com apoio financeiro, mas também com formação, acompanhamento técnico e ajuda na burocracia.
“O erro muitas vezes é dar dinheiro sem perguntar se a pessoa sabe o que é trabalhar a terra”, explicou, defendendo que é essencial ensinar o “B.A.BA. da agricultura” a quem quer regressar ou iniciar-se na atividade. O objetivo é atrair novos perfis, para além dos filhos de agricultores, e garantir que os jovens se sintam preparados e apoiados.
Como exemplo da abordagem de proximidade, o presidente revelou ter tirado licença de trator, incentivando outros jovens a fazerem o mesmo, numa lógica de liderança pelo exemplo.
“É esta parte prática, próxima, que compete às autarquias”, afirmou.
A XXVIII Feira Gastronómica do Porco de Boticas afirma-se, assim, como muito mais do que um evento gastronómico. Num concelho integrado num território classificado como Património Agrícola Mundial, a feira é também um sinal de que tradição e inovação podem caminhar lado a lado, atraindo visitantes, criando oportunidades económicas e lançando sementes para o futuro.
Até domingo, Boticas volta a ser palco de sabores autênticos, saberes ancestrais e uma mensagem: O interior tem valor, tem qualidade e tem futuro.
*Conteúdo com apoio na sua produção.


