A Feira da Caça e Turismo de Macedo de Cavaleiros assinala este ano 28 anos de feira e 30 anos da Festa dos Caçadores do Norte, sendo um dos mais relevantes certames cinegéticos da Península Ibérica. Uma história construída ao longo de três décadas, que cruza tradição, gastronomia e gestão sustentável da natureza.

Em entrevista à Komunica Magazine, João Alves, presidente da Federação das Associações de Caçadores da 1.ª Região Cinegética (FARCIC), recorda que tudo começou de forma simples, muito antes da feira ganhar a dimensão atual.
“Isto começou há 30 anos por iniciativa de duas ou três pessoas. Na altura nem sequer existia feira, eram apenas montarias. Chamava-se Encontro Venatório do Nordeste Transmontano. Só dois anos depois é que a feira surgiu”, explica.
A ligação de João Alves à caça começou cedo, aos 13 anos, e sem tradição familiar associada.
“Não havia caçadores na minha família. Deram-me um cão de caça, eu criei-o e comecei a levá-lo comigo. O cão gostava de caça e eu comecei a gostar também. A caça é uma coisa inata. Ou se é caçador ou não se é”, afirma.
Uma visão que contraria a perceção negativa que, por vezes, recai sobre a atividade.
“A caça não é matar animais inocentes. Sempre existiu e faz parte da nossa história. Os reis e os nobres eram caçadores. No início era uma forma de obter alimento, hoje é uma forma de estar.”
Segundo o dirigente, o tiro é apenas uma parte residual: “A parte menos importante é o tiro. O mais bonito é o trabalho dos cães, a relação entre o animal e o cão, o coelho a fugir, a perdiz a levantar, o cão a detetar e a trazer. Isso é que é a caça.”
Gestão, regras e preservação
Em Macedo de Cavaleiros existem cerca de 30 zonas de caça, geridas por associações locais.
“O país está praticamente todo ordenado em zonas de caça. As associações fazem a gestão, promovem repovoamentos quando é necessário, sempre com autorização das entidades competentes.”
A atividade é regulada por legislação rigorosa, sublinha João Alves.
“Existem muitas regras. Desde logo na carta de caçador. A maioria das pessoas é consciente. Para isso existem as federações e a confederação, para dialogar com o Governo e o ICNF e melhorar os procedimentos.”
Para o responsável da FARCIC, a caça é também um instrumento de preservação ambiental.
“Contrariamente ao que muitas vezes se diz, os maiores preservadores da natureza são os caçadores. Fazem sementeiras, limpam charcas, promovem repovoamentos. Se não fosse esse trabalho, algumas espécies já teriam desaparecido.”
Gastronomia como fator de atração
A ligação entre caça e gastronomia é outro dos pilares do certame da Feira da Caça e Turismo que abriu ontem, quinta-feira, portas, no Parque Municipal de Exposições.
“Aqui come-se dos melhores pratos de caça do país. Javali, lebre, coelho, perdiz. Há uma tradição muito forte”, afirma João Alves.
Durante a feira, a Rota Gastronómica do Javali envolve restaurantes do concelho e das aldeias vizinhas.
“Há muita gente que vem cá propositadamente para comer caça. Aproveitam para ver a feira, mas o motivo principal é a gastronomia.”
Na apresentação do certame, o presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros, Sérgio Borges, destacou o percurso e a importância do evento.
“Estamos a falar de uma verdadeira marca identitária de Macedo de Cavaleiros e de uma referência incontornável no plano nacional e ibérico”, afirmou.
O autarca sublinhou que são “três décadas de história, de crescimento e de afirmação, sempre com respeito pelo território e capacidade de inovação”.
A sessão de abertura contará, hoje, sexta-feira, pelas 18h30, com a presença do ministro da Agricultura e Mar, e da madrinha da feira, a chef Justa Nobre.
Com cerca de 200 expositores e a participação de 800 caçadores, a feira estende-se a várias freguesias.
“É um evento descentralizado, com montarias distribuídas pelo concelho, corrida de galgos, caça a cavalo e provas de grande tradição”, explicou Sérgio Borges.
Impacto económico
O impacto económico é considerado determinante para a região.
“É um balão de oxigénio para a hotelaria, restauração, comércio e serviços”, afirmou o autarca.
Quem visita a feira é também convidado a descobrir um território distinguido com vários selos de excelência, como o Geoparque Terras de Cavaleiros, o Entrudo Chocalheiro e os Caretos de Podence, Património Cultural Imaterial da Humanidade, e a Reserva da Biosfera Transfronteiriça da Meseta Ibérica.
Restrições devido à gripe aviária
Entretanto, a Câmara Municipal informou que, por indicação da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, estão proibidas atividades que envolvam aves de capoeira ou aves em cativeiro, no âmbito das medidas de prevenção da gripe aviária.
“O Município lamenta os constrangimentos causados, reforçando que a proteção da saúde pública e da saúde animal são prioridades absolutas”, conclui a nota.
Programa da Feira hoje


