Entre celebrações, encontros e momentos de partilha, a Paróquia da Sagrada Família, em Chaves, tem como prioridade reforçar a sua ligação à comunidade, num trabalho conduzido de forma próxima pelo padre José Banha e pelo grupo de catequistas e voluntários.
A Festa de Natal e Reis, no início do ano, demonstrou isso mesmo. Quem chegou ao local deparou-se desde logo com a dimensão do evento. O estacionamento nas imediações rapidamente ficou completo e, no interior, o salão com capacidade para cerca de 250 pessoas revelou-se pequeno. Foi necessário ir buscar cadeiras a outras salas e, ainda assim, houve participantes de pé e várias crianças sentadas no chão, junto ao palco.
Para o pároco, este foi um dos grandes méritos da iniciativa. “Foi um verdadeiro encontro comunitário. Um convívio que juntou catequizandos, famílias e outras pessoas da paróquia e até de fora dela. Confesso que fiquei surpreendido quando cheguei e vi tanta gente”, refere, sublinhando que “nem sempre, nem mesmo nas atividades habituais da catequese, se consegue esta mobilização”.
A festa contou com a participação de cerca de uma centena de crianças e adolescentes da catequese, num universo que ronda atualmente os 200 inscritos.
Fortalecer a comunidade através da fé e da partilha
Ao longo da tarde, sucederam-se momentos musicais, leituras, atuações musicais e apresentações preparadas pelos próprios catequizandos. Alguns tocaram piano, outros instrumentos, e um grupo de adolescentes do décimo catecismo foi responsável pela abertura e encerramento da festa. Para muitos pais, foi também uma oportunidade de verem os filhos “em palco”, algo que José Banha reconhece como um fator decisivo para a adesão.

“Os pais gostam de ver os filhos a participar. Se os convocarmos apenas para uma reunião, é mais difícil. Mas um encontro festivo como este aproxima, cria diálogo e gera relação”.
Mais do que um momento lúdico, a Festa de Natal e Reis teve uma dimensão formativa e espiritual. Num tempo em que o Natal tende a ser vivido de forma muito social e consumista, o pároco destaca a importância de recentrar o essencial. “Muitas vezes fica-se pela árvore de Natal e pelos presentes, mas falta a figura do Menino Jesus. O grande festejado acaba por ser o grande esquecido”, alerta, defendendo que estas iniciativas ajudam os mais novos a interiorizar o verdadeiro significado do Natal e dos Reis.
A festa teve ainda uma vertente solidária, com a angariação de fundos destinados à aquisição de uma imagem de São Carlo Acutis, jovem italiano falecido em 2006, aos 15 anos, vítima de leucemia. Conhecido pelo seu uso da internet como meio de evangelização, foi proclamado padroeiro da internet e é considerado um santo muito próximo da linguagem e do quotidiano dos jovens.
“Gostava que eles sentissem que esta imagem é nossa, que está aqui graças também ao esforço e contributo deles”, explica o pároco, acrescentando que São Carlo Acutis será assumido como patrono da catequese.
A escolha não é inocente. “É um jovem do nosso tempo, de ténis, mochila às costas e telemóvel na mão. Quando os jovens olham para a imagem, percebem que a santidade não é algo distante ou irreal. É possível hoje”, afirma.
Outro aspeto valorizado foi a colaboração interparoquial, com a presença de catequistas e crianças da paróquia de Soutelo. Num contexto em que se fala cada vez mais em unidades pastorais, o padre considera essencial este trabalho em rede.

“É importante continuar a incentivar esta colaboração. A Igreja hoje não se entende apenas à escala de uma paróquia isolada”.
Voluntariado e compromisso mantêm viva a ação paroquial
Ao longo da conversa com a Komunica Magazine, o sacerdote não esconde as dificuldades atuais da catequese, sobretudo a concorrência com outras atividades e a sobrecarga de horários das crianças.
“Entre vir à missa ou à catequese e ir jogar futebol, é muito mais atrativo jogar futebol. E muitos pais optam por isso”, admite, sublinhando que estas festas ajudam a criar entusiasmo e a aliviar o peso de um percurso catequético longo, que pode durar cerca de dez anos.
Apesar dos desafios, o balanço é claramente positivo. “A catequese não pode limitar-se aos encontros semanais, mais doutrinais. Precisa de momentos festivos, abertos à comunidade, que ajudem a criar sentido de pertença”, defende, lembrando que a catequese é uma iniciação à fé e à vida cristã, mas também uma escola de valores como a solidariedade, a partilha e a fraternidade.
Na Paróquia da Sagrada Família, todo o trabalho assenta essencialmente no voluntariado. Não há funcionários. Desde a limpeza ao acolhimento, da catequese à ação social, tudo é assegurado por pessoas que dão o seu tempo à comunidade. A Cáritas paroquial apoia cerca de 20 famílias carenciadas, existe um roupeiro solidário e um cesto de partilha fraterna à entrada da igreja.

“É um trabalho feito por pessoas que não ganham nada, mas que dão muito”, sublinha o pároco.
Com mais de cinco décadas de vida sacerdotal, o pároco olha para o presente com realismo e esperança. Reconhece que o tempo da “igreja de massas” ficou para trás, mas acredita numa Igreja mais consciente, mais comprometida e mais próxima.
“Hoje somos uma minoria, mas uma minoria com convicção. A Igreja é obra de Deus, feita por homens, e é o Espírito Santo que continua a agir”.
A Festa de Natal e Reis foi, nesse sentido, mais do que um evento pontual. Foi a prova de que, quando a comunidade se une, é possível criar beleza, encontro e sentido. “Através da beleza também se evangeliza”, conclui o José Banha. E naquele salão cheio, entre músicas, sorrisos e gerações reunidas, essa mensagem fez-se sentir.


