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Opinião | Reflexões da Nélita

Por Manuela Raínho // A Impermanência do Ser

Há dias em conversa com uma amiga – a poeta, Angélica Carvalho – surgiu esta expressão: A Impermanência do Ser. Comentei com ela que este conceito era um excelente tema para estas andanças das crónicas. Se pensarmos com alguma atenção, concluímos que já no tempo de Camões este assunto angustiava as sociedades e sobretudo as pessoas mais lúcidas tais como o poeta de Os Lusíadas. Não lhe chamava a impermanência do Ser, mas Mudança. Recorda-se daquele soneto, «Mudam-se os Tempos, mudam-se as vontades»? Pois é precisamente sobre a impermanência do Ser que Camões disserta, senão vejamos: Mudam-se os Tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o Ser, muda-se a confiança./ Todo mundo é composto de mudança/ Tomando sempre novas qualidades.//Continuamente vemos novidades/ Diferentes em tudo da esperança./ Do mal ficam as mágoas na lembrança,/E do bem, se algum houve, as saudades.// O tempo cobre o chão de verde manto,/ Que já coberto foi de neve fria,/ E enfim converte em choro o doce canto.// E afora este mudar-se cada dia,/ Outra mudança faz de mor espanto:/ Que não se muda já como soía.//Camões Rimas.

Como vê, caro leitor, um texto do século XVI tem uma actualidade gritante. Repare, hoje quer em Portugal, quer no mundo são tempos de mudança. Em 2019, o mundo acordou para uma mudança que pôs em causa tudo e todos – A pandemia – e, como diz o poeta outra mudança fez de mor espanto: que não se muda mais como soía. A partir da pandemia as sociedades transformaram-se e provou-se à saciedade que tudo é impermanente, inesperado e angustiante. No entanto a Humanidade passados alguns anos, aprendeu a viver com essa transfiguração e nunca mais retornou ao tempo antes da pandemia.

O mundo rege-se por três parâmetros que condicionam as sociedades: a política, o dinheiro e a ética. É interessante constatar que, se houve tempos em que a política e a ética subjugavam, o dinheiro, depois da revolução industrial, é quem governa o mundo e por isso, a política submete-se ao «vil metal sonante» e a ética meteu férias sine die. Todas essas mudanças condicionam os tempos actuais e concorrem para que a política recorra à imposição dos seus desígnios e os políticos tentem adaptar-se ou impor as suas ideologias: lembremo-nos de Biden que, apesar de saber que Israel está a proceder em Gaza a uma limpeza étnica, condena mas não confronta. Por sua vez, o Hamas não se preocupa em isolar um povo – o Palestino – usando-o como escudo humano, para fazer valer a sua visão extremista e fanática: a luta contra o Cristão. Já na Ucrânia, país vítima do fanatismo político de Putin, que se serve do poder e dos interesses económicos para atingir o poder de dominar a Europa que considera uma ameaça aos seus interesses mais inquietantes. E a ética onde está? E os valores humanistas, para onde foram? Relegados para uma posição subalterna que só é embandeirada para disfarçar os verdadeiros interesses.

Se a mudança arrasta o ser humano para situações que são confrontadas, a título pessoal, com uma inquietação amarga e nos conduz a estados de desencanto, sofrimento e tristeza, como poderemos superar estes sentimentos que nos avassalam e condicionam?!

Inicialmente, devemos consciencializarmo-nos que a Impermanência do Ser é a realidade experiencial que nos leva a encarar as mudanças como algo normal, que de nada nos vale querermos controlar e organizar a nossa vida ou o nosso futuro pois qualquer pandemia, qualquer guerra, qualquer mudança radical do nosso status quo baralha tudo e dá de novo. O segredo está na aceitação e no desapego. Aceitação dos factos ou das situações exteriores que nos condicionam ou influenciam mas que não conseguimos transformar, pois são externas e só podemos miudar o que nos é inerente. Desapego, na medida em que a aceitação das mudanças decorre de percebermos e analisarmos o que nos constrange; isso é muito mais fácil de gerir se nos colocarmos numa posição de vigilância atenta mas sem envolvimento emocional.

É fácil? Penso que não, ou melhor, sei que não. No entanto, destas duas atitudes depende optarmos por um caminho, um processo mais equilibrado ou sermos engolidos por uma montanha russa de sentimentos, um tropel de emoções que só nos inquietam e nada resolvem.

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