Por Manuela Raínho //
Hoje, 19 de agosto, faz anos que meu pai nos deixou depois de alguns anos de ser uma sombra do que fora. Era um homem lindo, moreno, cabelo encaracolado, olhos argutos e perfurantes, culto e um comunicador nato. Era dono de um carácter vincado e partia do pressuposto que tinha sempre razão. Adorava mulheres, independentemente da raça ou credo, por isso sensível à sua beleza e interesse. Lembro-me de uma tarde em que vínhamos ambos a Lisboa, no elevador de Santa Apolónia, uma morena tórrida, tipo Ava Gardner que se fazia descaradamente a ele, à saída, encabulado, sussurrou: «viste o descaramento daquela fulana de vestido vermelho? E depois um homem tem de ser de pau!»; «Vi» respondi eu, «tomou a atitude correta»; «Se a mamã visse fazia uma cena!»; «Mas não viu. Vi eu. E posso jurar que se portou como um cavalheiro!» Sorrimos ambos em silêncio.
Em miúda era para comigo de uma exigência rigorosa, mas não lhe tinha medo. Adorava-o e admirava-o; era o meu herói! Com cerca de oito anos, descobri que escrevia; tinha um poema épico-satírico fabuloso que comecei a ler, «As Salazaríadas» que, em certo dia queimou, para grande pena minha – soube muito mais tarde, que fora denunciado à PIDE e por isso resolveu deitar fogo a livros e papéis que estavam escondidos ma estante, atrás do sofá.
Como a minha mãe tinha mais estudos do que ele – fora mandado para África para junto do Pai porque era um jovem irreverente, indisciplinado que a minha avo, sozinha, não conseguia controlar, resolveu então tirar o curso técnico electrotécnia e mais tarde o de Agente Técnico da mesma área. Anos depois, concorreu e ficou colocado como Mestre de Oficinas de Electrotécnia.
Enquanto professor era formidável; como homem de cultura, único. Lia sem destino e como contestatário que era, escrevia no Jornal da terra. Como dizia a minha mãe, adorava comprar uma boa briga; segundo dizia à família, quando se referia a mim, afirmava que nunca me casaria por ser demasiado inteligente… enganou-se; casei e o meu casamento custou anos de separação física dos meus pais, pois não os podia ver.
Hoje, lamento ter contrariado a sua obstinação. No entanto, dado que era filha dele e com uma personalidade idêntica, chocar-nos-íamos fatalmente. Nos últimos anos da sua vida, visitava-me; dávamo-nos bem excepto em termos políticos e culturais, pois eu era o produto de um país que racionalmente contestava, mas emocionalmente amava. Para ilustrar esta incoerência, partilho um facto: tinha 13 ou14 anos e durante a aula de português escrevi um texto, a pedido da professora, que falasse sobre o facto de Índia querer anexar Goa, Damão e Diu. O texto que escrevi foi seleccionado para ser lido na presença do Governador Civil no decorrer de uma comemoração de desagravo e Amor Patriótico sobre tal facto. Para grande espanto e dor, meu pai não esteve presente. Questionei-o sobre isso. Sério, perguntou: «Então tu, que prezas tanto a Liberdade, contestas um povo que só quer a sua Liberdade?» Emudeci. Anos mais tarde, por ser pró-Frelimo, o meu pai questionou-me. Disse-lhe então a sorrir: «Lembra-se do que me disse sobre a autodeterminação de Goa, Damão e Diu?!» Aprendi a lição; «percebi que apesar de ter nascido em África não sou dona desta terra, pois Portugal é colonizador!» passados uns largos segundos, comentou em surdina, «Maldita a Hora em que te ensinei o que é a Liberdade!»
Esta crónica é mais uma homenagem a alguém que foi muito importante na minha formação como pessoa e cidadã. Daí este tributo.


