Por António Augusto
Dizem que a vida é simples e nós é que a complicamos. Não deixa de ser verdade, mas eu não acho que se faça isso por mero masoquismo. Complicamos porque precisamos de sentir que temos o controlo sobre as coisas, e na verdade, com o passar dos anos, perdemos aquela inocência que nos permitia acreditar no fácil.
Somos amaldiçoados pelo dom da interpretação, e, portanto, um problema nunca é apenas um problema, é sempre alguma coisa mais. Quando uma situação se apresenta fácil, temos de ser pragmáticos, fugir ao óbvio. Temos de investir o nosso tempo a fazer perguntas sem respostas e traçar cenários que não nos levam a lado algum.
Talvez a vida seja apenas uma sucessão de eventos aleatórios e indiferentes, e nós insistimos em dizer que somos seres complexos a viver uma vida difícil para não admitirmos que andamos desesperadamente perdidos a tentar comunicar com fumo numa fogueira que insistimos em acender a meio duma tempestade.
Confesso que a tentação de mandar as consequências para o inferno é algo encantador. Resolver tudo no imediato, com a subtileza de um martelo, e que se lixe o resto.
Observo aqueles que se escondem atrás de muros de dificuldades imaginárias, fugindo ao confronto de decisões que precisam de ser tomadas, adiando o inadiável, e observo outros, que evitam caminhos complicados, não por serem loucos, mas porque tem juízo suficiente para perceberem que nem tudo tem de ser complicado para ser bom, e por isso vivem a vida de forma mais autêntica, aproveitando as coisas simples e os momentos puros.
Eu já não ando com grande paciência para lidar com certas merdas. Que se lixe o óbvio. Enfrentar ou fugir são apenas duas formas distintas de dar importância a coisas que, daqui a algum tempo, serão recordadas como algo já esquecido e sem valor.
O meu castelo de cartas parece a Torre de Babel, fruto de anos duma paciência que confundo frequentemente com falta de melhores opções. Quando passas a vida inteira a construir estruturas frágeis que qualquer brisa de realidade deita abaixo, perdes o apego à arquitetura e ganhas o gosto pela demolição. Então foda-se. Que venha logo um furacão e desfaça essa merda toda. Se fui eu que montei cada nível com o suor da minha ansiedade, também o direito de o fazer desmoronar, quanto mais não seja pelo prazer de voltar a montar tudo de novo, ou na falta de melhor, queimar o baralho duma vez.
A vida não é bela nem feia, nem simples nem complexa. A vida é apenas estupidamente indiferente ao que somos e ao que pensamos. Nós é que temos a puta da mania que controlamos alguma coisa e, portanto, somos peritos e complicar o fácil.
O castelo vai cair de qualquer maneira, pela mão do tempo ou do destino. Portanto já que é assim, mais vale que seja por minha conta. Aí sim posso dizer que controlei alguma coisa na puta da vida, quanto mais não seja a minha própria queda.


