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Opinião | Drogas, mano

Por António Augusto

Quando ouvimos falar em drogas pensamos logo naqueles produtos de origem duvidosa, comercialização obscura e consumo rápido. Fala-se de drogas como se fossem apenas coisas ilegais, mas a verdade é que atualmente, as piores drogas nem sequer são proibidas.

A maior droga que eu consumo todos os dias é a rotina. Aquele repetir de dias que me adormece o pensamento e me convence de que está tudo bem. Fico agarrado a essa estabilidade como se andasse sob o efeito de um comprimido mágico, que me tira a dor, mas não resolve o problema. Quando passa o efeito, a dor volta e traz alguns amigos, e quando tento mudar alguma coisa a respeito disso, o meu cérebro faz birra como se estivesse em abstinência absoluta.

Outra droga que consumo em larga escala são as expectativas. As minhas, as dos outros, e as que eu invento só para ter com que me preocupar. São tóxicas, isso são. Têm aquele efeito lento, que se instala devagar até eu já não conseguir perceber o que quero ao certo. O pior é que volto sempre a elas, e continuo a consumir do mesmo como se não houvesse amanhã.

Também descubro, de vez em quando, que tenho uma estranha dependência do caos. Não faço de propósito, mas há dias em que só funciono quando tudo está de pernas para o ar. Deve ser um vício antigo, dos que ficam agarrados à pele e fazem parecer que a desorganização é o meu estado natural. Quando o mundo está pacífico demais, começo a estranhar. É como se faltasse qualquer coisa.

Por último a droga mais silenciosa de todas que é a necessidade de controlar o que não depende de mim. Essa é forte. Tem efeitos secundários garantidos e continuo a cair como um pato. É uma espécie de “tóxico do bem” porque sei que faz mal, mas dá-me a sensação enganadora de que estou no comando, e isso mantém-me adicto.

A verdade é que eu próprio já deixei de distinguir o que é vício, hábito ou simples teimosia. Só sei que as drogas da vida nem sempre são substâncias. Muitas são ideias, manias, padrões que seguimos sem pensar. E cada uma delas, à sua maneira, promete aquele alívio rápido que desaparece logo a seguir.

E como toda a droga que se preze, não é fácil largar, mas sinceramente, já me habituei. Cada um de nós tem o seu vício preferido. O meu depende do dia, mas estou a tentar manter-me sóbrio do que me faz mal… e viver um dia de cada vez.

A verdadeira questão não é se usamos drogas. É quais escolhemos… e quais nos escolhem a nós.

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