Por Jorge Fonseca | Líder em Forest School Nível 3
Sem agenda, sem ecrãs, sem pressa: é no “não fazer nada” que nasce a verdadeira autonomia
Vivemos numa época em que o tempo das crianças é cuidadosamente preenchido. Entre atividades extracurriculares, estímulos constantes e a presença quase permanente de ecrãs, o aborrecimento tornou-se algo a evitar a todo o custo.
Mas e se for precisamente nesse vazio — nesse “não ter nada para fazer” — que começa uma das aprendizagens mais importantes da infância?
Aborrecer-se não é um problema. É, na verdade, um ponto de partida.
Quando uma criança não tem instruções nem um plano definido, começa a pensar por si própria. Inventa jogos, testa ideias, resolve pequenos desafios. Este processo é essencial para o desenvolvimento da autonomia — uma competência central nas primeiras idades, particularmente no pré-escolar.
A autonomia não se constrói através de tarefas dirigidas ou respostas certas. Desenvolve-se na experiência, na exploração ativa e na possibilidade de errar.
No entanto, muitos adultos sentem necessidade de intervir constantemente. Ao orientar em excesso, ainda que com boa intenção, retiramos às crianças a oportunidade de experimentar e de se reconhecerem como capazes.
Também o risco controlado tem aqui um papel importante. Subir, equilibrar-se, construir — são experiências que ajudam a criança a conhecer os seus limites, a tomar decisões e a ganhar confiança.
Observação em contexto Forest School
Num espaço natural, um grupo de crianças de 4 anos encontra um conjunto de paus e cordas. Sem instruções, começam por explorar livremente.
Após alguns minutos de aparente “indecisão”, uma criança sugere construir uma “casa”.
O grupo organiza-se, testa estruturas, enfrenta pequenas frustrações (quedas, instabilidade) e ajusta estratégias.
O adulto observa e intervém apenas quando solicitado.
No final, mais do que o resultado, destaca-se o processo: cooperação, resolução de problemas, persistência e tomada de decisão autónoma.
Talvez esteja na altura de ressignificar o aborrecimento. Não como falha, mas como espaço de crescimento.
Porque crescer não é seguir instruções. É aprender a criar o próprio caminho.
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