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Opinião | Animais de rua

Por António Augusto //

Animais de rua são, por norma, vidas abandonadas à própria sorte, que “habitam” os espaços públicos. Animais domesticados por outros animais que deixaram de lado a sua componente humana ao assumirem um comportamento instintivo, sem responsabilidade nem racionalidade, descartando vidas como quem rejeita um objeto sem valor.

Muitos foram um dia companheiros de casa, outros já nasceram na rua. Carregam com eles o peso de uma culpa que nunca lhes pertenceu, como se o abandono fosse consequência deles e não da falha de quem os deixou para trás.

É precisamente nesse cenário que surgem pessoas que fazem a diferença e que não conseguem ignorar e decidem agir. Mais do que justo, é necessário reconhecer e valorizar o trabalho de quem, sem nada pedir em troca, dedica tempo a acolher, tratar e procurar soluções. Uma responsabilidade que deveria ser de todos, mas que acaba sempre por recair sobre poucos.

A verdade é que, por mais louvável que seja este esforço, ele não devia ser necessário. O problema não está nos animais, está em nós. A falta de civismo, a irresponsabilidade e até a indiferença coletiva perpetuam a presença de cães e gatos nas ruas, entregues ao acaso.

Num mundo ideal, não haveria necessidade de recolher animais abandonados, porque simplesmente não existiriam animais de rua. Esse seria o verdadeiro sinal de uma sociedade cívica e responsável. Enquanto houver animais nas ruas, estaremos perante o espelho da nossa própria incapacidade de sermos verdadeiramente humanos.

Até lá, o trabalho de quem cuida continua a ser essencial e digno de reconhecimento, porque no meio da falha coletiva são esses gestos individuais que fazem a diferença entre a vida e a morte de muitos seres indefesos. Obrigado.

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