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“Flor de Laranjeira” do jovem cineasta Rúben Sevivas, filmado em Soutelo, vence prémio de Melhor Documentário no Ymotion

“Flor de Laranjeira” foi distinguido pelo júri da 9ª. edição do Ymotion – Festival de Cinema Jovem de Famalicão com o prémio de Melhor Documentário, filme de Rúben Sevivas e que tem como cenário a aldeia de Soutelo, no concelho de Chaves.

“Flor de Laranjeira” é descrito pelo cineasta como um filme bastante intimista e pessoal, que fala sobre a vida da sua avó materna que por opção foi mãe solteira na década de 50. A curta, que já esteve em três festivais nacionais e conquistou dois prémios (FESTin2023, Prémio do Público para Melhor Curta-metragem), demorou cinco anos a estar concluída. Agora, Rúben Sevivas quer exibir o documentário de 17 minutos em Soutelo, iniciativa que prevê realizar a 23 de dezembro.

O autor de “Flor de Laranjeira” revela que a opinião do público acerca do seu trabalho tem sido “bastante gratificante”, mas admite que inicialmente estava com algum receio.

“Eu estreei-o de forma tímida. É um filme muito íntimo. Mas de repente as pessoas reveem-se no que estão a ver, choram, riem… tem sido super interessante ver aquilo que o espectador sente”, refere.

Apesar da aclamação do público, Rúben conta que depois da estreia do filme, em junho deste ano, decidiu parar porque não se sentia confortável com a própria indústria do Cinema e só meses mais tarde voltaria a pegar no documentário que agora foi distinguido em Famalicão.

“Peguei no filme outra vez, mudei a cor, alguns enquadramentos. O formato está igual, mas quis mudar coisas. Fi-lo também numa altura em que não estava muito confortável com o próprio Cinema e com a indústria. Então acho que precisei deste distanciamento e da força do público para continuar”.

No próximo ano, o jovem artista pretende apresentar o documentário em festivais internacionais.

Esta é a segunda vez que o júri do festival famalicense atribui o prémio de melhor documentário a Rúben Sevivas, depois de “Direito à Memória” em 2019.

A semana principal do Ymotion decorreu de 29 de novembro a 2 de dezembro, sendo que a sessão de encerramento do festival foi o culminar de quatro dias de sessões competitivas e momentos temáticos ligados à sétima arte, com a presença de caras bem conhecidas do público português como: Rui Reininho, Valter Hugo Mãe, Carla Chambel e Paula Lobo Antunes.

O Ymotion – Festival de Cinema Jovem de Famalicão é uma iniciativa promovida pelo Município de Vila Nova de Famalicão, através do pelouro da Juventude, desde 2015, que tem dado palco ao trabalho de jovens cineastas portugueses, dos 12 aos 35 anos, e permitido estreitar laços entre instituições de ensino, estudantes e a indústria da sétima arte.

Disseram que ela tinha de casar e ela não casou. Mostrou uma resiliência enorme

“Flor de Laranjeira” surgiu no âmbito de uma disciplina de Cinema e Outras Artes de Mestrado frequentada pelo jovem realizador.

“Nessa altura eu já estava cá a ajudar a minha mãe a tomar conta da minha avó”, lembra Rúben. “Tinha um dia para fazer o trabalho. Chamei a minha avó e começamos a ver fotos de família e ela ia debitando histórias. Montei tudo e enviei um pequeno filme para o meu orientador. Mas o filme não estava terminado. Foi um filme que eu fiz em 20 horas para entregar a uma disciplina e para ter uma nota”, afirma.

O filme sobre esta avó teve como primeiro título “A minha avó Isabel” e foi no dia em que defendeu a tese de mestrado que o flaviense reconheceu que o trabalho de curso merecia ser concluído como forma de homenagear a sua avó, que nessa altura já tinha falecido.

“Peguei no filme em 2021 e desatei a chorar. Cada vez que eu pegava no filme chorava. Eu não conseguia. Foi no final do ano que consegui pegar nele a sério e nasceu o filme que é hoje, o ‘Flor de Laranjeira’, muito reflexivo sobre a vida da minha avó”, explica.

O documentário tem duas partes. Numa primeira é a protagonista a contar a sua história de vida.

“Eu narro o filme. Tenho uma espécie de cronologia para dar a entender às pessoas para onde é que ela foi e o que fez. Depois é ela a contar a história. Ainda tem outro momento onde passo a contar a nossa história e a minha relação com ela”.

O título escolhido para o documentário acabaria por ser inspirado no nome da rua onde a avó Isabel vivia e onde o autor ainda mora, no número 14 da Rua da Laranjinha, em Soutelo, concelho de Chaves.

“A flor de laranjeira é um símbolo das noivas. A minha avó foi mãe solteira. É um bocado irónico porque ela não deixa de ser pura, nem de ser aquilo que era só por ter sido mãe solteira”, disse.

A avó de Rúben acabaria por casar, anos mais tarde, e dessa relação nasceu a mãe do realizador.

“É um filme bastante feminista. Eu sou feminista. Acho até que a Teoria Queer vem do feminismo e é algo com que eu me preocupo, estudo e trabalho, e acho que ainda é preciso lutarmos contra um sistema, principalmente em Trás-os-Montes que ainda é bastante definido por regras patriarcais”.

O autor, constata, porém, que essas regras têm origem na maior parte das vezes em dogmas criados pela sociedade e por isso incontestáveis pela maioria.

“E devemos rebater. E ela rebateu. Disseram que ela tinha de casar, mas não casou. Ela mostrou uma resiliência enorme. Então o produto final é uma mistura destes anos todos deste sentimento”, apontou.

Rúben, que realizou o seu primeiro filme intitulado “Fôlego” (2017) aos 25 anos, confessa que o seu principal objetivo é criar uma boa história, que prenda o público e que transmita sensações, embora tenha a preocupação de introduzir algumas das causas que defende.

Além de “Fôlego”, o jovem, atualmente com 32 anos, é ainda autor da curta-metragem “Direito à Memória” (2019) e “Sobrevoo” (2021), sendo “Flor de Laranjeira” o seu primeiro filme profissional.

“Eu tive sorte de ganhar prémios e ter uma visibilidade nacional com filmes académicos. Acho que tive sorte nesse percurso. E embora ‘Flor de Laranjeira’ nasça de uma ideia que tive para uma disciplina, agora, visualmente, está muito mais capacitado. Foram utilizadas outros tipos de câmaras, lentes e com música feita de propósito para o filme”.

A barreira que separa Trás-os-Montes de Portugal

Soutelo foi assim, durante quatro dias, o cenário das gravações do melhor documentário da 9ª. edição do Ymotion.

“Fui eu e a minha diretora de fotografia a filmar e a viver em minha casa. Com a minha mãe e o namorado a pegarem em projetores e a minha irmã a fazer direção de arte. Depois foi juntar amigos para fazer a banda sonora, para a correção de cor nova, para gravar a narração em estúdios de rádios de Lisboa e não pagar nada sobre isso. Foi um filme que custou bastante pouco graças aos amigos”.

Depois de “Flor de Laranjeira”, gravou ainda no mesmo ano o “Adeus” que segundo o autor trata-se da sua primeira curta ficção queer filmada em Trás-os-Montes, tendo como cenários a barragem de Vale de Anta, no concelho de Chaves, e uma das discotecas da cidade (Pulse).

“Eu sei que não chego a tanta gente com documentários, mas sim com ficções. Então estes dois filmes acabam por ser estratégicos”, justifica, adiantando que o “Adeus” estreará já no próximo ano.

“Eu quero filmar Trás-os-Montes como o conheço. Sou gay, sou transmontano, fui criado por mulheres, a minha avó, a minha mãe e a minha irmã. Percebi todas as lutas e as dificuldades que elas tiveram… então, para mim, mostrar o meu Monte, que é a minha realidade, é o que faz mais sentido”, esclarece Rúben Sevivas.

Esta ideia surgiu ao ler Simone de Beauvoir. Ela dizia que “devemos partilhar o nosso privado porque o mesmo se tornava político” e é esse princípio do feminismo que o jovem cineasta flaviense começou a utilizar nos seus trabalhos.

“Eu sou mais verdadeiro e consigo chegar a mais pessoas se eu contar o meu privado, como foi a minha experiência e fazer com que as pessoas percebam quais foram as minhas dificuldades e talvez entendam como é que podemos mudar socialmente de alguma forma”.

E é perentório: “Aquilo que eu sempre quis fazer foi ter um compromisso artístico e político ao mesmo tempo. Não quero comprometer a minha parte política e este meu cunho social que coloco nos meus filmes, mas ao mesmo tempo também não quero que os meus trabalhos deixem de ter a componente artística, que deixem de ser bonitos, bem feitos… ou seja, que as duas estejam em harmonia”.

Contudo, admite que tem sido um percurso muito duro pois considera que existe uma espécie de sistema que privilegia na maioria das vezes estruturas já consolidadas na indústria cinematográfica.

“Este ano as regras mudaram, felizmente. E eu candidatei-me. Acho que mais ou menos sozinho consigo ter alguma possibilidade no concurso do Instituto do Cinema e Audiovisual. Mas até aqui, valia sempre muito mais o poder da produtora”.

Neste contexto, as novas regras colocam em destaque a ideia do projeto, tendo a valoração de 60%, a produção, 30%, e o currículo vitae em 10%.

Novos filmes, novos projetos, internacionalização e… regresso a Casa

Referindo-se ao seu novo filme, “Reco”, que está em pré-produção e que irá colocar novamente em destaque a aldeia de Soutelo, o cineasta flaviense conta que tem sido um ano de mudança, pois chegar ao fim do ano “com um filme em festivais, outro quase a estrear e outro ainda já em pré-produção” é algo que o enche de orgulho e o motiva a continuar a mostrar Trás-os-Montes e a contar as histórias de vida das gentes que cá moram.

A curta-metragem, que já recebeu o prémio de Melhor Guião, na 4ª. edição de Novos Argumentos, organizado pelo Short/Age – Shortfilms For a New Age, vai começar a ser filmado em dezembro do próximo ano e contará com a participação das atrizes Ana Padrão e Margarida Moreira.

Por causa do seu bom momento e da vontade de regressar a Chaves, de onde nunca quis sair, Rúben Sevivas prevê iniciar no próximo ano o seu próprio negócio – Sevivas Studios – , embora tenha consciência de que “é caro” gravar em Trás-os-Montes, muito por causa da falta de equipamentos logísticos e de gravação.

“O meio circula muito à volta de Lisboa, é muito centralizado. Estamos a tentar descentralizar, mas ainda é necessário ir a Lisboa tentar trazer e resgatar as coisas para cá”, constata.

E “mesmo que a barreira entre Trás-os-Montes e Portugal, vamos dizer assim, se torne difícil de transpor – o que eu acho que não – tenho o mercado da Galiza e existe ainda o mercado ‘emigrante’”, acrescentou.

Devido à sua visibilidade, o realizador tem sido convidado para estar presente como membro do júri em vários festivais nacionais e internacionais, como é o caso do Beast – Festival Internacional de Cinema, e onde tem trabalhado também com pessoas da indústria.

Sobre o seu futuro, o flaviense confessa que o objetivo é entrar no circuito internacional dos melhores festivais de cinema europeus que acontecem em Cannes, Locarno, Roterdão, Veneza e Berlim.

Apoios: AGEAS Seguros Portugal; AGEAS Seguros Chaves; Produtos Alimentares Carina

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