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Cinema | 60 anos depois filme de Manoel de Oliveira volta a ser exibido em homenagem a Curalha

O filme “Acto da Primavera” voltou a ser exibido em Curalha, numa sessão ao ar livre que assinalou os 60 anos da passagem do cineasta Manoel de Oliveira pela freguesia.

O filme, escrito e produzido por Manoel de Oliveira em 1963, é um documentário etnográfico que regista a celebração popular do Auto da Paixão de Cristo pelos habitantes de Curalha.

Alexandra Carneiro, especialista em Cinema e um dos membros da Associação de Desenvolvimento Local de Curalha (Castrum), promotora da iniciativa em conjunto com a Cinemateca Portuguesa, destaca a importância que a obra tem não só para os habitantes da aldeia flaviense que têm “a realidade de há 60 anos representada”, mas também para “toda a comunidade cinéfila portuguesa” uma vez que esta obra “marca o ponto de viragem na história do Cinema”.

Curalha já promoveu outros eventos de homenagem ao filme e criou inclusive murais com o rosto do realizador português, falecido a 2 abril de 2015, e dos protagonistas do Auto da Paixão de Cristo.

Nascida e criada em Curalha, Alexandra Carneiro acredita que a passagem de Manoel de Oliveira “mudou completamente a forma de viver” na aldeia.

“Se temos homenagens ao filme, se temos murais em homenagem ao realizador, temos de ter uma sessão comemorativa do filme. O filme existe e deve ser visto. Essa é a melhor celebração que podíamos fazer ao realizador e às pessoas que já não estão connosco mas que participaram nele”, referiu Alexandra Carneiro.

Além da sessão de cinema ao ar livre, onde estiveram presentes cerca de 250 pessoas, a Castrum promoveu um roteiro pelos principais locais alusivos à passagem do realizador por Curalha.

“Acto da Primavera” é um marco no Cinema português

Manoel de Oliveira é o “único realizador que percorre o cinema português”, desde o mudo até ao cinema contemporâneo. O seu primeiro filme remonta a 1931 e o último foi produzido em 2014.

“Ele percorre todo o cinema português, todos os formatos, todos os estilos e géneros. O seu cinema é muito particular, havendo vários realizadores que o adotaram e que criaram uma espécie de filiação”, explicou Ricardo Lisboa da Cinemateca.

Contudo, houve outros no mundo do cinema que preferiram “rejeitar” o trabalho desde cineasta, que sofreu “um período muito difícil”, sobretudo até à década de 70, por não ser um realizador “querido” do regime de Salazar, passando mais de uma década sem filmar – “Aniki Bóbó” (1942) e “O pintor e a cidade” (1956).

Só com o 25 de Abril é que Oliveira “consegue encontrar condições para produzir com regularidade mas nunca de uma forma industrial”, sublinha Ricardo Lisboa.

A partir dos anos 90 lança-se com produções internacionais, contando com o apoio de países como França, Espanha e Estados Unidos da América, mas Manoel de Oliveira “sempre prezou por um cinema dito artesanal”, ou seja, com a participação de poucos atores, baixos orçamentos e sem grandes efeitos.

Era na “realidade” que este grande mestre do cinema encontrava “todo o poder da fantasia” de que necessitava e o “Acto da Primavera” retrata o primeiro momento em que consegue filmar simultaneamente a realidade e o teatro: “E é esse encontro que define o cinema do Oliveira daqui para a frente”, atira o mesmo responsável.

A iniciativa contou com o apoio da Junta de Freguesia de Curalha e do Município de Chaves.

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