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Projeto pioneiro dá ferramentas para controlar a ansiedade em Chaves | “Já não me fecho em casa”

Três dos 12 utentes que concluíram um programa de relaxamento promovido pela Unidade de Saúde Familiar (USF) Aquae Flaviae, em Chaves, deixaram de apresentar sinais de ansiedade na avaliação final, segundo os resultados preliminares.

O projeto “Menos Ansiedade, Mais Saúde”, criado pela enfermeira especialista em Enfermagem de Saúde Mental e Psiquiátrica Luísa Mangas Correia, decorreu nas instalações provisórias do Centro de Saúde n.º 2 e incluiu oito sessões de psicoeducação, relaxamento e gestão emocional.

Das 30 pessoas referenciadas pelos médicos da unidade, 15 cumpriram os critérios de participação, definidos para adultos até aos 64 anos e com ansiedade identificada através de uma escala de avaliação. No início do programa, 12 participantes apresentavam ansiedade grave, dois ansiedade moderada e um ansiedade ligeira. Entre os 12 que concluíram as sessões, três apresentaram ansiedade grave na avaliação final, dois ansiedade moderada, quatro ansiedade ligeira e três não revelaram sinais de ansiedade.

“Os resultados foram ótimos. Nem eu estava à espera de resultados tão positivos”, afirmou Luísa Mangas Correia durante o encerramento do projeto, realizado na sexta-feira, 24 de julho.

A enfermeira ressalvou, contudo, que o impacto do programa não deve ser medido apenas através dos valores registados na escala.

“Estamos a falar de números, mas também dou muita importância ao que as pessoas dizem e sentem. Se alguém me disser que está melhor e que já consegue gerir a sua ansiedade, isso também deve ser valorizado”, sustentou.

O projeto começou em janeiro, com a apresentação da proposta à equipa da USF Aquae Flaviae, seguindo-se a referenciação dos utentes pelos médicos de família. Cada pessoa passou por uma consulta de enfermagem de saúde mental, durante a qual foi avaliado o nível de ansiedade e explicada a natureza voluntária da terapia de grupo.

Luísa Correia destacou a importância de distinguir a ansiedade enquanto reação natural de uma perturbação com impacto na vida diária.

“Todos nós temos ansiedade. É uma reação normal do organismo perante o stress ou uma situação que interpreta como perigosa, real ou imaginária. Quando interfere com as atividades da vida diária e deixa a pessoa em sofrimento, passa a ser uma perturbação”, explicou.

Palpitações, aceleração da frequência cardíaca, falta de ar, tremores, náuseas, vómitos ou sensação de morte iminente estão entre os sintomas que podem manifestar-se durante uma crise.

“Muitas pessoas dizem que parece que o coração lhes vai sair do peito, que lhes vai acontecer alguma coisa ou que vão morrer. É importante perceberem que essa sintomatologia vai passar e aprenderem a controlá-la”, acrescentou.

A enfermeira decidiu avançar com o projeto por considerar necessário reforçar a prevenção e o acompanhamento na área da saúde mental, sobretudo depois da pandemia de covid-19. A Organização Mundial da Saúde estimou que, no primeiro ano da pandemia, a prevalência mundial da ansiedade e da depressão aumentou cerca de 25%.

“Vivemos todos a correr, como se tivéssemos a certeza de que amanhã estaremos com saúde para voltar a fazer tudo, menos cuidar de nós. É importante prestarmos atenção tanto à saúde física como à saúde mental”, declarou Luísa Correia.

Sessões adaptadas

Os 15 participantes foram distribuídos por dois grupos, com sessões às 11h00 e às 17h00. A divisão permitiu criar grupos mais pequenos e integrar duas pessoas com ansiedade associada à presença em multidões.

“Tive de organizar dois grupos para perceber se essas pessoas se adaptavam. O resultado foi positivo porque ambas conseguiram participar e, logo na primeira sessão, disseram que queriam continuar”, contou.

Cada encontro teve uma duração entre 60 e 90 minutos e começou com uma dinâmica relacionada com o tema da sessão. Seguiram-se a componente de psicoeducação, os exercícios de relaxamento e a partilha das experiências dos participantes. O programa abordou a identificação dos sintomas de ansiedade, as estratégias a adotar durante uma crise, a autoestima, a regulação emocional, a higiene do sono, a motivação e a mudança de hábitos.

“A mudança de hábitos foi trabalhada no final porque muitas vezes estamos preocupados com aquilo que não conseguimos controlar: o tempo, o que os outros pensam ou o que fazem. Aquilo que podemos controlar são os nossos hábitos. Investir no autoconhecimento é uma das chaves para a mudança”, referiu a enfermeira.

Antes e depois dos exercícios, foram avaliadas a tensão arterial, a frequência cardíaca e a frequência respiratória dos utentes. Apesar de os dados ainda não estarem totalmente tratados, Luísa Correia adiantou que foi verificada a diminuição da tensão arterial e do pulso em vários participantes.

“Tinha de me isolar”

Cláudia Cid, de 26 anos, integrou o projeto depois de sofrer crises de ansiedade acompanhadas por palpitações, tremores, calafrios e choro.

“Tinha de me isolar e tremia muito. Quando alguma coisa me incomodava, não falava e guardava tudo até chegar a um ponto em que tinha crises. Às vezes não conseguia sair de casa e precisava de ficar sozinha”, relatou.

Os sintomas agravaram-se durante o mestrado em Química Medicinal, numa altura em que conciliava a elaboração da tese, o trabalho em laboratório, responsabilidades na residência onde vivia e dificuldades no emprego.

“Estava todo o dia fora e, quando chegava a casa, tinha de me fechar no quarto. Não conseguia ver mais ninguém nem fazer mais nada. Sentia-me esgotada mental e fisicamente”, recordou.

A jovem já tinha procurado acompanhamento psicológico e tomava medicação há cerca de dois anos, mas encontrou no programa uma abordagem que lhe permitiu aplicar autonomamente algumas técnicas.

“Gostei muito dos exercícios de relaxamento, sobretudo da imaginação guiada. Em casa, coloco uma música calma, controlo a respiração e sinto que isso me ajuda a desligar e a relaxar”, contou.

Cláudia Cid considera que o projeto lhe deu instrumentos para enfrentar os sintomas e o receio de, no futuro, deixar a medicação.

“Antes pensava que não seria capaz de controlar isto sozinha. Agora sinto que tenho um guia e outras ferramentas. Já não me fecho em casa como fazia antes. Continuo a ser uma pessoa preocupada e um pouco ansiosa, mas melhorei bastante”, afirmou.

A participante destacou também a importância da partilha de experiências dentro do grupo.

“Vinha motivada porque sabia que à sexta-feira tinha a sessão de relaxamento. Era um momento agradável e sentíamos que estávamos todos no mesmo barco”, acrescentou.

Ataques confundidos com problemas cardíacos

Teresa Silva, de 47 anos, decidiu participar no programa por sofrer de ansiedade e ataques de pânico desde os 33 anos. O primeiro episódio ocorreu num período marcado pelo diagnóstico de cancro da mãe, pelo fim de uma relação em que foi vítima de violência doméstica e pela conclusão de um curso. Durante uma semana, recorreu diariamente ao hospital por pensar que estava a sofrer um problema cardíaco.

“O ataque de pânico era como se estivesse a ter um ataque cardíaco. Ficava com o corpo dormente, sensação de desmaio, tensão baixa, falta de forças, dificuldade em respirar e o coração muito acelerado. Não sabia o que era e ia todos os dias ao hospital”, relatou.

Após esses episódios, procurou acompanhamento psiquiátrico e foi-lhe diagnosticada depressão e ansiedade. A situação voltou a agravar-se durante a pandemia, quando se encontrava no Porto, tinha ficado sem trabalho e enfrentava as restrições aos contactos sociais.

“Já não tinha ataques de pânico há vários anos e tinha deixado os antidepressivos, mas, durante a covid-19, voltei a ter uma crise. Estava fechada, não podia estar com outras pessoas e tinha ficado sem trabalho. Foi tudo ao mesmo tempo e tive de retomar a medicação”, contou.

O projeto da USF Aquae Flaviae foi a primeira terapia de grupo em que participou. Teresa Silva disse que as técnicas de respiração e relaxamento contribuíram para melhorar o sono.

“Quando tenho dificuldade em adormecer, coloco música relaxante e faço os exercícios de respiração. Isso ajuda-me a relaxar e a adormecer mais depressa. Já aplico no dia a dia aquilo que aprendi nas sessões”, afirmou.

Saúde mental desvalorizada

As duas participantes consideraram que a ansiedade continua a ser desvalorizada em alguns contextos sociais e profissionais. Cláudia Cid recordou uma crise ocorrida no local de trabalho, onde sentiu falta de compreensão por parte das pessoas responsáveis.

“Há quem diga que é para chamar a atenção ou que não é nada. Quando alguém parte uma perna, toda a gente percebe e fica preocupada. Quando é uma questão de saúde mental, muitas pessoas ainda desvalorizam”, lamentou.

Teresa Silva reconheceu que existe atualmente uma maior consciência, mas defendeu que persistem preconceitos em torno das doenças psicológicas e psiquiátricas.

“A ansiedade ainda é vista por algumas pessoas como uma mania, uma cisma ou algo que está apenas na cabeça. Apesar de hoje existir uma maior compreensão, ainda há muito trabalho a fazer na sociedade na área da saúde mental”, afirmou.

Nova avaliação

O encerramento do projeto incluiu uma caminhada simbólica pela cidade, orientada pelo professor de Educação Física Marco Correia, do Município de Chaves, para destacar os benefícios do exercício físico na redução do stress e da ansiedade. A sessão contou ainda com atuações do pianista Gabriel Correia, da bailarina Núria Gonçalves e da cantora Patrícia Carvela, além da apresentação de um vídeo, da entrega de certificados e de um momento de convívio. A iniciativa teve também a colaboração do clube Fernão Dança.

Os participantes voltarão a ser avaliados dentro de três meses, numa sessão de acompanhamento destinada a verificar se os resultados se mantêm e de que forma estão a aplicar as técnicas aprendidas. Luísa Correia admitiu ainda alargar os critérios de idade numa futura edição, para permitir a integração de utentes com mais de 64 anos que foram referenciados, mas não puderam participar nesta primeira fase.

“As pessoas que não reuniam os critérios não vão ficar esquecidas. A intenção é alargar o projeto e conseguir chegar a mais utentes”, concluiu.

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