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Opinião | Reflexões da Nelita

Por Manuela Raínho //

Boa tarde, caro leitor. Apesar de haver imensos assuntos proeminentes que se prendem com a progressão desta sociedade pós-moderna, permita-me partilhar consigo um assunto comezinho e quotidiano que, embora alardeemos aos sete ventos que somos cada vez mais independentes da televisão, muito cá no íntimo precisamos dela, quanto mais não seja, para depois criticar o oportunismo dos pivots, comentadores e afins que se servem da disrupção generalizada, para – através de verdadeiras masturbações mentais – nos consumirem a espuma dos dias.

Ora no dia dezasseis de abril, fiquei subitamente sem televisão. Liguei para o 16990 onde uma técnica encantadora me orientou durante cerca de quarenta minutos, para verificar tudo e mais alguma coisa em termos técnicos. Esgotadas as múltiplas verificações, declarou que, provavelmente, seria a box que estava avariada. Tomou a liberdade – que muito agradeci, aliás – de agendar a visita do técnico para o dia dezassete de abril entre as 13:00 e as 18:00 horas. Tinha uma mesa redonda em que gostaria imenso de estar presente, no Quarteirão da Cultura, inserida na Feira do Livro de Chaves e não pude ir pois estava agendada a visita do técnico da NÓS. Eis senão, quando após uma tarde de espera, às 16:01 recebo um SMS da parte do técnico,  a informar que não viria naquele dia.

Como deve calcular, a minha capacidade de encaixe transbordou e no dia seguinte, ao constatar que também não vinham, liguei novamente para o 16990 e devo confessar que os remanescentes de raiva biliar, que ainda restavam, embandeiraram em arco e abri a folha número cinco. Resultado: recebi um SMS anódino a agendar a visita para o dia 24 de abril, entre as 13:00 e as 18:00 horas. Devo confessar que a minha alma ficou estupefacta! É preciso ter lata! No dia 23 de abril, fui – preventivamente – notificada, através de um novo SMS de que no dia 24, receberei a visita do hipotético técnico, claro está se não houver algum percalço.

Enchi-me de coragem e fui até à sede da NÓS, aqui na cidade, e confrontei-o com este melodrama televisivo vulgar, que é substituir uma box avariada ou pouco mais. Resposta politicamente correcta de quem me atendeu, quando referi que iria escrever sobre o assunto: «faça como entender.»

E fiz caro leitor, sobretudo porque, na minha perspectiva, as pessoas deixaram de ser humanas, indivíduos, para passarem a ser números, descartáveis e superficiais. Poderei ser um algoritmo na visão técnico-burocrata de uma qualquer empresa, mas enquanto puder fazer o meu valor enquanto ser humano, elevarei a minha voz e farei valer os meus direitos, pois que – religiosamente – cumpro no dia dezanove de cada mês, a minha obrigação: pagar a mensalidade contratual.

 

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